Vincent

Home / Resenhas / Quadrinhos / Vincent
Mari

Mari

Colaboradora em Com'Aboard Geek Culture
Você sabia que Mariana Pelissoli é colaboradora da Com'Aboard? Quer ler resenhas publicadas por ela? Confira abaixo! =] Se quiser conhecer mais sobre esta colaboradora, acesse "Nossa Equipe" no menu principal!
Mari

Últimos posts por Mari (exibir todos)

 

Vincent sempre foi um artista à frente de seu tempo, mas isso o trazia muitos problemas para vender seu trabalho. Adicione isso à sua personalidade forte, depressão e uma pitada de psicose e temos a conturbada história de um dos mais conhecidos e aclamados pintores de todos os tempos. Ainda assim, por incrível que pareça, no meio de todo esse drama, o que realmente marca sua história é o amor de seu irmão e a inegável paixão de Vincent pelo seu ofício.

Este livro nada mais é que a história dos últimos anos de vida do pintor pós-impressionista Vincent Van Gogh, adaptada na forma de quadrinhos por Barbara Stok, uma jornalista e fotógrafa holandesa que desde 1998 se dedica aos quadrinhos. Vincent é o seu oitavo livro, e para fazê-lo ela levou 3 anos e contou com total apoio do próprio Museu Van Gogh em Amsterdã.

Com esse livro, Barbara venceu o premio holandês de “Melhor Autor de HQ” do ano de 2009.

Sua arte pop é super original, e o modo como ela incorpora as famosas pinturas de Van Gogh ao longo da história é maravilhoso. Quem é fã do pintor, irá se deliciar conforme for “descobrindo” os quadros enquanto lê (spoilers dos quadros abaixo!).

Van Gogh sempre foi o meu pintor favorito (sim, eu tenho um! haha), desde que vi pela primeira vez em um consultório uma réplica de “A Noite Estrelada”. Fiquei fascinada com o seu jeito de pintar, porque parecia que eu conseguia sentir as emoções dele através de suas pinceladas rápidas, que eram muito mais do que uma simples representação daquilo que se vê. A graphic novel Vincent consegue demonstrar exatamente esses sentimentos que Vincent passa para a tela.

Vou resumir um pouco a história para inserir os meus pensamentos, mas não acho que isso se trate de um spoiler, já que a história de Van Gogh é muito conhecida, e por isso não atrapalha a leitura do livro.


Ficha Técnica

Título original: Vincent

Autora: Barbara Stok

País de origem: Holanda

Editora (Holanda): Nijgh & Van Ditmar

Lançamento (Holanda): 2012

Editora (Brasil): L&PM

Lançamento (Brasil): 2014

Tradução: Camila Werner

Edição: 1

Volumes: 1

Preço: R$29,90


Um pouco da história


Noite Estrelada Sobre o Ródano – 1888

A história se inicia com a mudança de Vincent do apartamento em que vivia com seu irmão Theo em Paris, para o sul da França em Arles. Vincent já não aguentava mais ficar na cidade e se muda para o sul, pois acha que lá ele conseguirá pintar mais quadros e juntar dinheiro para pagar os investimentos recebidos de seu irmão.

Ao se mudar pra lá, Vincent modifica também seu estilo de pintura, se aproximando mais daquele que conhecemos hoje. Podemos ver em suas pinceladas o quanto ele queria pintar rapidamente. Ele era muito exigente consigo mesmo (um workaholic) e por causa da pressão que ele colocava em si mesmo, estava constantemente estressado.

Vincent planeja montar um sindicato para ajudar os artistas a sobreviver e criar um lugar para que eles pudessem se reunir e colaborar uns com os outros, pois como muitos artistas brilhantes não encontravam um patrocinador, eles frequentemente passavam por muitas necessidades.

Mas quando Vincent é despejado do hotel em que estava alojado (por se desentender com o dono) e aluga a Casa Amarela, conhecida assim pelo seu quadro que a retratava, ele acha que finalmente teria o recanto para artistas que ele sempre sonhou.


A Casa Amarela – 1888

O primeiro artista que ele chama para morar na sua casa foi seu amigo Paul Gauguin. Porém, ele não responde seu chamado. Isso, somado a ele achar que seus quadros não estão melhorando, o deixam cada vez mais doente e depressivo. Eis que, então, seu irmão Theo finalmente convence Gauguin (se tornando um patrocinador do mesmo) a se unir à ele. Theo argumenta que suas idéias poderão dar certo ao lado de Vincent e que ele produziria cada vez mais e melhores pinturas.


Quarto em Arles – 1888

Apesar da boa intenção de Theo, a relação de Van Gohg e Gauguin é meio conturbada, já que a única coisa que possuíam em comum era a pintura. Se unirmos a isso o fato de que os quadros de Gauguin vendiam (e os de Vincent não), bem como a facilidade deste último em arranjar namoradas (e a dificuldade de Vincent), a relação entre eles se torna cada vez mais insuportável e os ataques de fúria de Van Gogh se tornam cada vez mais frequentes.

Vincent gostava muito de pintar ao ar livre e retratar paisagens cotidianas através da emoção, Gauguin não. E eles se desentendiam muito por que Vincent queria que Gauguin estivesse sempre com ele fazendo o que ele gostava, não respeitando muito o modo de vida do outro artista.


Série Girassóis – 1888
Doze Girassóis numa Jarra / Os Girassóis

Depois de muitas brigas e desentendimentos, 0 estopim para que Gauguin decidisse sair de vez da Casa Amarela foi durante o famoso episódio psicótico em que Vincent arrancou sua própria orelha.

Ele não se lembrava de nada no dia seguinte, e após sair do hospital, tinha alucinações frequentemente e novos episódios psicóticos. O modo como Barbara retrata a depressão e a psicose de Vincent, no estilo de pintura dele, me faz pensar nas emoções que ele sentia, e como isso refletia nos seus quadros. É quase como se você enxergasse através dos olhos do pintor!

Epilepsia
Episódio psicótico

As pessoas da cidade já não se sentiam mais tranquilas com Vincent pelas ruas com chance de ter um ataque violento à qualquer momento. A polícia decide, então, trancar sua casa e interná-lo em um asilo em Saint-Remy.

Mesmo triste por estar doente e ter que ficar internado, Vincent não parou de pintar. As obras que pintou enquanto estava internado são as que possuem um estilo mais distinto, como podemos ver no famoso quadro A Noite Estrelada.


A Noite Estrelada – 1889

Essa época também foi a em que ele vendeu o seu primeiro e único quadro quando ainda estava vivo.

Depois de melhorar um pouco ele se muda para Auver-sur-Oise, onde aos 37 anos se suicida com um tiro, e poucos dias depois de sua morte, seu irmão começa a mostrar sinais severos de depressão.


Vincent e Theo

A relação entre Theo e Vincent era muito forte, eles eram muito ligados apesar da distância, e escreviam constantemente um para o outro. Essas cartas foram incorporadas no livro, o que deixa a história ainda mais profunda. Todas as cartas foram compiladas em um livro chamado “Cartas a Theo”. Um filme chamado “Vincent & Theo” de 1990 também explora o relacionamento entre os dois.

Depois da morte dos dois irmãos, em 1914, os restos mortais de Theo que se encontravam na Holanda, foram transportados até Auvers-sur-Oise para que eles fossem enterrados lado a lado, como uma homenagem ao amor dos dois. A cena também é retratada na última página do livro, que não retrata os momentos finais de Vincent, e sim os últimos momentos em que ele passava bem com seu irmão.


Vincent e Theo enterrados lado a lado em Auvers-sur-Oise

Vários filmes foram feitos sobre Van Gogh, mas “Vincent & Theo” (1990) com Tim Roth e “Vincent: Pintando com Palavras” (2010) com Benedict Cumberbatch são os mais notáveis. Este último conta a história através das próprias palavras de Van Gogh, retiradas diretamente de suas cartas enviadas ao seu irmão.


Tim Roth e Benedict Cumberbatch como Vincent


Extra

Um fotógrafo chamado Tadao Cern (Tadas Cerniauskas), realizou um trabalho chamado “Revealing the truth” (Revelando a verdade), em que ele usa um programa de computador para transformar o auto-retrato de Van Gogh em uma foto, mostrando como ele seria. É um vídeo curtinho que é muito interessante. Muito legal como a tela vai se transformando em uma foto.

Confira o processo:

“Revealing the Truth”, por Tadao Cern

 


Personagens Principais

 Vincent
Vincent Willem van Gogh

Foi um pintor pós-impressionista holandês. Mudou-se para Paris, onde dividia um apartamento com seu irmão Theo. Através dele, conheceu vários impressionistas franceses. Dois anos depois, mudou-se para o sul, o que influenciou seu estilo. Ele sofria de ansiedade e episódios psicóticos, que o levou a suicidar-se aos 37 anos. Em sua homenagem foi criado o Museu Van Gogh, em Amsterdã.

Theo
Theodorus van Gogh

Irmão mais novo de Vincent, foi um negociador de arte que colaborou para popularização de vários artistas impressionistas como Monet e Degas. Patrocinou seu irmão, o que o permitiu se dedicar exclusivamente à arte. Apresentou a ele pintores como Paul Gauguin, Paul Cézanne, entre outros. Além disso, através de suas cartas, encorajava Vincent quando este se encontrava perdido ou depressivo. Ao atirar em si mesmo, Vincent não morreu imediatamente, e sim dois dias mais tarde, recusando-se a ser tratado, o que permitiu que Theo fosse até lá e estivesse com ele no momento de seu falecimento. Poucos dias depois, Theo entrou em uma profunda depressão.

Gauguin
Eugène-Henri-Paul Gauguin

Pintor pós-impressionista francês que viveu por 2 meses em Arles junto com Vincent. Admirava-o muito, mas discutia frequentemente por diferenças de temperamento. Enquanto Vincent se inspirava na natureza e era muito desorganizado, Gauguin tirava suas idéias da imaginação e era muito metódico. Pequenas diferenças foram se acumulando até tornar a convivência dos dois insuportável para Gauguin, que acabou voltando para Paris.

Estilo: 20 exp. Apesar dos traços pop da autora parecerem infantis à primeira vista, você percebe que ele se encaixa muito bem, dando leveza à história trágica do autor. Ela levou 3 anos para completar o livro, e teve o cuidado de utilizar as cores dos próprios quadros de Van Gogh na composição. O modo como ela retrata as alterações de humor de Vincent é muito interessante, você praticamente consegue visualizar o que ele está sentindo.

Personagens: 20 exp. Vincent é um personagem excepcional por ter sido um artista tão conturbado quanto genial. O amor incondicional de Theo, mesmo sendo Vincent uma pessoa de personalidade muito forte (e por vezes irracional) é muito bonito e admirável. Mesmo Gauguin, obstinado e orgulhoso, ficando tão pouco tempo em Arles, foi pivô para muitas das criações de Vincent.

Qualidade da plot: 15 exp. A história de Vincent é muito interessante. Como a autora teve o apoio do Museu Van Gogh para criar o livro, as informações do livro são confiáveis, o que deixa a história ainda melhor pela ausência de fatos adicionados somente para efeito dramático. Porém, foca apenas nos últimos anos de vida do autor, que apesar de terem sido os mais importantes artisticamente, não deixam de ser apenas uma pequena parte de sua vida.

Cuidado com os detalhes: 20 exp. A autora se preocupou muito com os detalhes, pesquisando tudo sobre como as pessoas viviam naquela época, inclusive, como eram as roupas íntimas que as pessoas costumavam usar (hahaha). Dá para ver o comprometimento que a mesma teve com o livro.

Empatia com o leitor: 15 exp. Para mim, é quase impossível não gostar dessa obra. É uma leitura dinâmica, dramática e, ao mesmo tempo leve, já que não foca apenas nos eventos trágicos. Porém, para pessoas não tão interessadas em biografias, ou para aquelas que gostam de uma história mais completa como em obras biográficas, o livro pode não corresponder às expectativas.

 

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: