Dois Irmãos

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Juliana Yendo

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O orgulho patriótico vem dessa vez com um peso e uma densidade incrível: vamos falar sobre Dois Irmãos, uma adaptação para HQ dos irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá, baseado na consagrada obra literária de Milton Hatoum. É uma enorme responsabilidade falar sobre essa obra. Primeiro, porque estamos falando sobre a trama de um dos mais importantes nomes da literatura brasileira contemporânea. Segundo, porque os responsáveis pela transposição do texto literário para os desenhos e balões são um dos maiores representantes dos quadrinhos nacionais no momento – e um dos que mais admiro!


Ficha Técnica

Título original: Dois Irmãos

Autor: Milton Hatoum

Adaptação para HQ: Fábio Moon e Gabriel Bá

País de origem: Brasil

Lançamento: 2015

Editora: Companhia das Letras

Edição: 1ª

Páginas: 232

Preço Médio: R$42,90 (04/11/2016)


Preview

Milton Hatoum nasceu em Manaus (AM) e é filho de imigrantes libaneses. Arquiteto de formação, Hatoum estudou em São Paulo e, após concluir o curso de Arquitetura e Urbanismo na Universidade de São Paulo, partiu para os estudos literários. Publicou seu primeiro romance, Relato de um Certo Oriente, em 1989. Dois Irmãos foi lançado no ano 2000, seguido de seu terceiro romance de sucesso, Cinzas do Norte (2005). Essas três obras foram vencedoras do Prêmio Jabuti (Melhor Romance), o mais importante prêmio literário brasileiro.

 

Milton Hatoum, o autor da obra Dois Irmãos
Milton Hatoum, o autor do romance Dois Irmãos

 

Fábio Moon e Gabriel Bá são quadrinistas da capital paulista, irmãos gêmeos e os primeiros brasileiros a ganharem o Prêmio Eisner, considerado o “Oscar dos Quadrinhos”, com a obra Daytripper (2011 – Melhor série limitada). Este ano, receberam outro Eisner de melhor adaptação de outra mídia, com o quadrinho Dois Irmãos. Os paulistanos tiveram seu trabalho traduzido para diversos idiomas e conquistaram o público nacional e internacional.

 

Fábio Moon e Gabriel Bá recebem o Prêmio Eisner durante a Comic Con
Fábio Moon e Gabriel Bá recebem o Prêmio Eisner durante a San Diego Comic Con

 

Quando lemos Dois Irmãos, temos a impressão de que não tinha como essa adaptação dar errado: uma trama de extrema qualidade nas mãos de quadrinistas excepcionalmente talentosos. Quem vê o resultado pronto, exposto nas vitrines e prateleiras das livrarias, não imagina o trabalho por trás dessa HQ. Moon e Bá levaram quatro anos para elaborar a obra, que contou com a colaboração de Milton Hatoum para o desenvolvimento do universo nos quadrinhos. Os gêmeos se encontraram diversas vezes com o autor, que auxiliou principalmente na reconstrução da Manaus de antigamente (a história se passa em meados do século XX), dando dicas e descrições de lugares e coisas que não existem mais.

 

“Ler quadrinho é muito rápido e prazeroso, mas fazer quadrinhos é muito demorado. Então, tivemos que encontrar elementos constantemente durante o processo que nos mantivesse inspirados e animados sem comprometer a qualidade da obra, os detalhes e as densidades dos personagens”

Fábio Moon conta sobre a experiência de Dois Irmãos em uma entrevista para o G1

 

Fábio Moon e Gabriel Bá em seu estúdio em São Paulo
Os quadrinistas em seu estúdio em São Paulo

 

A estrutura dos quadrinhos é bem parecida com a do livro: a organização dos capítulos é semelhante, bem como os acontecimentos em cada um deles. A trama aborda um complexo drama familiar, que envolve disputas entre irmãos gêmeos, ciúme, inveja e outros problemas familiares. Tudo isso é contextualizado na cidade de Manaus, em meados do século XX. É curiosa a maneira como a obra aproxima o leitor, de alguma forma, com o autor e os quadrinistas, seja pelo fato de Hatoum ser descendente de libaneses e manauara, seja pela coinciência de a HQ ser desenhada por irmãos gêmeos.


Contexto e ambientação

A história de Hatoum é ambientada em Manaus, em um arco temporal que engloba vários anos: desde a infância e adolescência até a vida adulta dos protagonistas, os gêmeos Yaqub e Omar. Pelo contexto, podemos deduzir que a infância dos gêmeos se deu entre as décadas de 1930 e 1940.

A cidade de Manaus é a grande protagonista cenográfica da HQ. Independentemente dos episódios ocorridos em outras localidades, como as viagens feitas pelos personagens e o fato de um ou outro ter residido em uma cidade diferente, toda a trama é ambientada na capital amazonense, do começo ao fim. Isso é muito interessante e traz grande riqueza para o retrato e a história da cidade. Moon e Bá enchem os olhos dos leitores com paisagens e construções manauaras, conseguem nos transportar para a cidade e nos mostrar como ela era no século passado. O estilo adotado pelos quadrinistas condiz muito com a trama. A HQ é toda em preto e branco, criando o tom certo de dramaticidade para a obra. Além disso, o jogo de luz e sombra é cuidadosamente elaborado, o que traz vida, destaque e beleza para cada quadro desenhado.

 

Ilustração da cidade de Manaus, na HQ Dois Irmãos
Ilustração da cidade de Manaus, na HQ Dois Irmãos

 

A magnitude desse universo não se dá apenas pelo espetáculo visual e pelo destaque dado à Manaus, mas também ao fato de a trama possuir como pano de fundo fatos históricos importantes. A repercussão de acontecimentos históricos, como a II Guerra Mundial e a ditadura militar no Brasil, é retratada no contexto manauara. Episódios como o incêndio da Cidade Flutuante, bairro que pairava sobre o rio Negro, e a perseguição de civis por militares costuram a trama, resultando em uma obra riquíssima, sob diversas perspectivas.


História

O tema central da obra é o relacionamento complicado entre os irmãos gêmeos Yaqub e Omar. Desde a infância, a relação entre os dois é coberta de rivalidade, rancor, ressentimentos, inveja e ciúme. Com o passar do tempo, nada disso é amenizado. Os conflitos são intensificados, assim como o ódio e as desavenças familiares.

Yaqub e Omar são filhos de imigrantes libaneses, Zana e Halim. Além dos gêmeos, o casal teve uma filha, Rânia, e, logo no início do casamento, trouxeram para dentro de casa Domingas, a empregada da família. Vários episódios do passado são contados ao leitor para explicar o contexto e os dramas familiares. Halim nunca quis ter filhos, mas Zana, por outro lado, sempre insistiu que queria ter três, nem mais nem menos. Desde o nascimento dos gêmeos, Zana criou uma afeição exagerada pelo caçula, Omar, que nasceu alguns minutos após Yaqub. Omar adoeceu muito nos primeiros meses de vida e cresceu cercado por um zelo e mimo excessivo da mãe – ele sempre foi o “queridinho” de Zana. Os conflitos graves entre os irmãos começaram após um incidente durante a infância, aos treze anos. Após isso, os pais resolveram separar os irmãos, tomando a drástica medida de enviar um deles para o Líbano. A ruína da família é desencadeada após esse episódio.

 

Trecho da HQ Dois Irmãos: no primeiro quadrinho, a família dos gêmeos Yaqub e Omar
Trecho da HQ Dois Irmãos: no primeiro quadrinho, a família dos gêmeos Yaqub e Omar

 

Muitas questões mal resolvidas entre os personagens e problemas de relacionamento familiar são abordados de forma consistente na trama. Apesar de alguns episódios extremos, Hatoum aborda assuntos densos e os insere em um contexto extremamente realista.

Todo esse drama familiar é contado ao leitor por um narrador-personagem, que convive na casa da família. A identidade do narrador é revelada ao leitor aos poucos e descobrimos o seu nome somente no final. Boa parte da história é narrada em “terceira mão”, já que o narrador não vivenciou, nem presenciou alguns episódios: ele nos reconta histórias e lembranças do passado, pertencentes a outras pessoas, e descreve impressões e pontos de vista construídos por ele a partir do relato dessas pessoas. Não irei revelar a identidade do narrador, pois acredito que seja um dos elementos-chave da obra, que traz surpresas e densidade à trama – e também para despertar curiosidade em quem não conhece a história!

A construção dos personagens é muito rica, desde os protagonistas até os secundários e o narrador. Com o decorrer da história, vemos o narrador se desenvolver, construir sua identidade. Um dos pontos mais interessantes da trama é o fato de ela deixar várias dúvidas, propositalmente. Como somos conduzidos por um narrador-personagem, as distorções da realidade são possíveis. Essas distorções e as incertezas do narrador deixam muitas margens para o leitor interpretar os relatos.

Estilo: 20 exp. Sou uma grande fã do trabalho de Moon e Bá. O traço simples, preciso e belo é um dos pontos fortes dessa dupla. É incrível a habilidade dos irmãos em trazer sutileza, emoção e vida em cada quadro desenhado.

Personagens: 20 exp. Os personagens da obra de Hatoum são muito bem construídos e desenvolvidos. Fábio Moon e Gabriel Bá conseguem transpor para os quadrinhos a profundidade e densidade dos personagens criados pelo autor.

Qualidade da plot: 20 exp. A trama é fantástica: desde a maneira como nos é contada (por meio do narrador-personagem), até o desenvolvimento dos personagens e a construção e entrelaçamento dos episódios.

Cuidado com os detalhes: 20 exp. Tanto a construção do cenário, como a representação dos personagens é muito bem feita. A cada página, vemos a preocupação, o empenho e o capricho dos quadrinistas em retratar da melhor forma possível o universo de Hatoum para o leitor.

Empatia com o leitor: 16 exp. Dois irmãos é uma leitura complexa e densa. Envolve temas que certamente causam um incômodo no leitor ao terminar a obra. Por conta desse possível incômodo, tirei uns pontinhos. Mas isso, de maneira alguma, é empecilho para qualquer leitor entrar em contato com a obra e apreciar a leitura. Trata-se de um clássico da nossa literatura e, para nossa felicidade, fomos presenteados com essa linda adaptação! Independente do humor, gosto literário ou perfil, acredito que essa obra seja “leitura obrigatória” para o leitor brasileiro.

 

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