Tormenta RPG

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Gustavo Ferratti

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Fala, galerinha! Como ainda não tínhamos nenhum post de RPG de mesa no site, resolvi fazer um review de um sistema 100% brazuca de elevadíssima qualidade: o Tormenta RPG. Acredito que a maioria aqui saiba o que é um RPG de mesa, mas para aqueles que não sabem, recomendo este link para eventuais esclarecimentos. Outra alternativa é assistir o primeiro episódio de Stranger Things que começa com uma seção de RPG de mesa. Para quem não viu nosso review de Stranger Things e quiser conferir é só clicar aqui.

Quem conhece o Gustavo (redator que vos escreve), já sabe que sou extremamente suspeito de falar qualquer coisa sobre Tormenta RPG. Sim, o cenário de Tormenta é o meu ambiente narrativo predileto e geralmente conduzo minhas aventuras neste sistema. Mas por que? Bem, é uma história de amor que já dura vários anos…. Em suma, o que me atraiu inicialmente foi uma combinação de personagens ilustrados em estilo mangá, a grande persistência dos criadores em um período onde o RPG nacional era pouquíssimo explorado e a facilidade de leitura aliada ao baixo custo do material. Se quiserem saber um pouco mais sobre o fascinante universo de Tormenta RPG, continue com a gente nesse review! =]


Ficha Técnica

Título original: Tormenta RPG

Autor: Brauner, Caldela, Cassaro, Saladino, Svaldi e Trevisan

País de origem: Brasil

Lançamento: 2013

Editora: Jambô

Edição:

Páginas: 320

Preço médio: R$70,00 (08/10/2016, capa dura)


Sistemas de RPG

Vou abrir parênteses aqui para as pessoas que estão aprendendo sobre RPG de mesa agora (se você já conhece, pode pular para a próxima seção). Quando falo de sistema de RPG, me refiro ao conjunto de regras que rege a mecânica dos jogos. Tormenta RPG é hoje um sistema de licença aberta (OGL), mas antes de ser um sistema, “emprestou” a mecânica de outros jogos mais consolidados como GURPS e D&D. Como assim? Bem, se der asas à sua imaginação, você pode criar elementos históricos tão densos e complexos em um jogo de RPG que pode comercializar só estes elementos (sem as regras) de forma avulsa e usar as regras de outros jogos. Era assim que revistas de RPG nacional ganhavam dinheiro nos anos 90.

Existem sistemas que usam exclusivamente dados de 6 lados, outros que usam dados mistos de 10, 12 até 20 lados. Alguns ainda usam cartas de baralho, enquanto outros não requerem nada além da ficha do seu personagem. O sistema define como serão distribuídos os pontos de atributo que compõem as características do seu personagem, o nível de aleatoriedade do jogo, o grau de dificuldade para executar suas ações, entre muitas MUITAS outras coisas.

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Dados! Dados de (quase) todos os tipos \o/

A Evolução de Tormenta RPG

Apesar das informações da Ficha Técnica dizerem respeito ao livro que estou segurando em mãos neste exato momento (foto de capa), sei que a história evolutiva de Tormenta data de muuuuuuuito antes de 2013. Os primeiros insights do projeto foram revelados ao público geral em 1998 quando Marcelo Cassaro publicou a aventura Holy Avenger na findada revista de RPG nacional Dragão Brasil (que Deus a tenha). Marcelo Cassaro teve uma importância muito grande para a cultura geek no Brasil, desenvolvendo o sistema 3D&T amplamente difundido no formato revista. O principal diferencial do sistema era o conteúdo fácil e acessível aliado ao baixo custo. Vale lembrar que, nessa época, jogar RPG Brasil era algo difícil, caro e que exigia domínio elevado de Inglês (entendedores entenderão).

Na edição comemorativa Nº50 da revista Dragão Brasil, Cassaro e outros editores se reuniram para fazer algo especial para a comunidade RPGista. Lançaram, então, um suplemento com descrições do cenário de Tormenta adaptadas para GURPS, AD&D e 3D&T. Nem é preciso dizer que, pela qualidade do material, o suplemento vendeu mais do que a revista (tinha dono de banca desmembrando o KIT de aniversário só para vender o suplemento separado XD). Tormenta foi adaptado para vários outros sistemas como D20 e Daemon. Mas com o advento da licença aberta para jogos de RPG (OGL – Open Game License), surgiu a ideia de criar um sistema próprio: o Sistema Tormenta RPG.

 

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Revista Dragão Brasil Nº50 com o Suplemento do Cenário Tormenta

Sistema Tormenta RPG

No Sistema Tormenta RPG, o foco é muito mais voltado à narrativa do jogo e à liberdade criativa dos personagens do que em regras e realismo. Você não poderá sair cortando cabeças de dragões com um personagem LV1, mas terá uma sobrevivência alta e habilidades poderosas logo no primeiro nível. Seus personagens são naturalmente mais fortes, já que o acesso a itens mágicos e artefatos é bastante restrito no cenário. A mecânica é bem simplificada, mas a densidade do ambiente consegue abranger jogadores que vão dos níveis iniciantes a mais experientes. Utiliza vários dados de N faces (4, 8, 10, 12, 20) e uma folha de papel simples para ficha do personagem (frente e verso). Quem quiser saber mais sobre o sistema e os elementos históricos de Tormenta RPG, fica o link do wiki de Tormenta.

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Exemplo de Ficha – Tormenta RPG

Ambientação

Como narrador de Tormenta RPG, farei uma breve narrativa do cenário, recortando alguns fragmentos do livro:

Você está em Arton, um continente do tamanho da África bastante semelhante à Terra com uma atmosfera mágica. Arton é chamado de “mundo” no sentido que abrange todas as regiões conhecidas por seus habitantes, ou seja, é o único mundo que realmente importa para eles. Possui uma forma ovalada com extremidades na direção nordeste e sudeste. O litoral é de baixa profundidade, o que impossibilita a navegação e dificulta a saída dos habitantes do continente.

Ao Sul, existe uma gigantesca massa de terra que está se separando aos poucos da porção principal devido aos movimentos tectônicos (assim como a Austrália se distanciou da África). Esta terra é conhecida como Arton-Sul ou Lamnor. Lamnor é lar de criaturas bestiais como orcs, gnolls, trolls, hobgoblins e muitra outras. Também abriga algo terrível e ameaçador para a realidade dos humanos: a Aliança Negra. Mais do que um exército, a Aliança Negra é um império organizado focado na dominação de toda a Arton.

O maior centro populacional de Arton é conhecido como O Reinado, um conjunto de nações bastante miscigenado. Com um total de 36 milhões de habitantes, o reinado possui 80% de sua população humana e outros 20% distribuídas entre as mais de 30 raças.

 

Mapa do Reinado da versão de fã de Daniel Ramos Santos para o cenário Tormenta
Mapa do Reinado da versão do fã de Daniel Ramos Santos para o cenário Tormenta

O Panteão

Uma das coisas que gosto muito em Tormenta RPG é que o politeísmo “come solto” com divindades maiores e menores brigando e se multiplicando, assim como na mitologia greco-romana. Existe uma diversidade enorme de deuses e é impossível você não se identificar com algum, o que dá mais fluidez e corpo ao roleplay. Na sequência, um trecho adaptado do livro base do jogador. A lista completa de deuses pode ser visualizada aqui.

 O mundo de Arton foi criado por 20 deuses maiores, nascidos da comunhão do Nada com o Vazio. O conjunto destes 20 deuses é conhecido como O Panteão. Mesmo divididos e orgulhosos, todos os deuses trabalharam juntos contribuindo com o que tinham de melhor para formar o mundo de Arton. Das relações amorosas entre os deuses surgiram deuses menores que atuam como servos das divindades superiores.

Tillian – O Louco e O Terceiro (aquele cujo nome nunca deve ser pronunciado) perderam seu status de divindade maior no episódio conhecido como “A Revolta dos Três”. Valkaria – A Deusa da Ambição, também foi punida por participar da revolta, mas continua com seu lugar entre os deuses maiores.

 

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O Panteão com a representação dos deuses maiores

A Tormenta

Tormenta RPG é muito maduro em duas abordagens principais: (1) jogos de poder e conspirações e (2) dualidades. No que diz respeito ao segundo item, questões como bem VS mal, humano VS divino, estratégia VS caos estão muito presentes no cenário. No entanto, há uma dualidade particular que permeia toda a aventura de Tormenta RPG: razão VS loucura. Por quê? Bem, por causa da Tormenta propriamente dita.

“…uma tempestade de nuvens rubras e chuvas de sangue ácido, que destrói tudo por onde passa e traz criaturas insetóides conhecidas como lefeu. A Tormenta ataca de modo aparentemente aleatório e uma vez que se instala, nunca abanda o lugar. Os pouquíssimos sobreviventes da Tormenta acabam invariavelmente loucos, pois algo na tempestade rubra corrói a mente de qualquer criatura viva. ”

Apesar da impotência dos personagens perante a tempestade rubra gerar um certo desconforto, jogar em uma Área de Tormenta é muito interessante, pois permite profundos embates psicológicos e reflexões acerca da racionalidade humana.

 

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Ataque a uma Área de Tormenta

 


Obras Criadas dentro do Universo de Tormenta

Muitos romances e histórias foram criadas dentro do universo de Tormenta, bem como suplementos e expansões para o jogo. Falar de cada uma delas exigiram posts inteiros, mas destaco nas fotos abaixo algumas que tenho e, particularmente, gosto bastante.

 

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Suplementos de Tormenta RPG
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A Trilogia Tormenta escrita por Leonel Caldela (O Inimigo do Mungo + O Crânio e o Corvo + O Terceiro Deus), além de Crônicas de Tormenta (um livro com vários contos avulsos)

Conclusões Finais

Se pudesse escolher um objeto para levar em uma ilha deserta com meus amigos, seria o meu livro básico de Tormenta RPG. É um jogo que fortalece a mente, promove a integração de um grupo, consciência colaborativa, melhora habilidade de leitura e escrita e dá asas à imaginação. Mais do que isso, é um jogo cuja a única oportunidade de melhoria depende de VOCÊ melhorar suas capacidades. Para mim, a experiência do RPG de mesa é melhor do que a de qualquer jogo eletrônico ou de tabuleiro (na verdade, é a base para esses jogos). E, como Tormenta RPG foi o que me abriu as portas a este universo, amo este cenário como um membro da família. Opinião suspeita? Talvez. Mas garanto que não encontrarão nenhum jogo de RPG nacional tão bem elaborado quanto este.

Ambiente: 20 exp. O mundo de Arton foi projetado e revisado inúmeras vezes por longos anos pela equipe de Tormenta RPG. O resultado final é simplesmente incrível com uma diversidade enorme de reinos, deuses, raças, classes e conflitos históricos. Itens mágicos são raros, mas extremamente poderosos de forma que você vai querer persegui-los no jogo.

História: 20 exp. Os criadores pensaram desde a concepção do universo e dos deuses, com a subsequente evolução das raças, até momentos históricos marcantes como As Guerras Táuricas, a chegada da Tormenta, O Extermínio Élfico e a fundação da cidade Valkaria. O mestre, definitivamente, não se sentirá desamparado.

Mecânica: 19 exp. Simples, intuitiva e muito focada na interpretação (roleplay). Simpatizantes de sistemas mais complexos e powerplayers podem não gostar muito da abordagem, mas jogadores iniciantes e pessoas mais focados em narrativa encontrarão muita facilidade e liberdade de se aventurar pelo cenário.

Replay: 20 exp. É impossível enjoar da modalidade RPG de mesa, por si só. Sua imaginação é o limite para as histórias. Na pior das hipóteses, caso comece a enjoar, é só mudar todo o cenário e personagens e começar uma aventura nova! Garanto que em Tormenta RPG suas opções de aventura não vão acabar tão cedo.

Cuidado com os detalhes: 20 exp. O universo de Tormenta foi minuciosamente arquitetado, de forma que todos os elementos são harmônicos e tem uma razão para estarem ali. Mesmo em meio ao caos de Nimb, há harmonia na forma que as coisas foram orquestradas e muito embasamento para criação dos elementos geográficos, históricos e políticos. As ilustrações em estilo mangá também dão vida a história. Vale a pena conferir.

 

3 Comments

  • O tal redator infame Gustavo me iniciou nessa vida de TRPG.
    hoje mestro, promovo e estou terminando a trilogia (muuuito boa, pode fazer resenha dela tb), inclusive oq me trouxe ao site pra procurar sugestões de proximas leituras.. decidi q vou dar uma olhada desse cronicas da tormenta.

  • Anônimo

    Sou jogador de tormenta mas,discordo fortemente quando você deu nota máxima pra ele no quesito de detalhes, se você ler os livros ,vera que as descriçoes de cidades e lugares são muito porco,tem muita tabela errada,muitos textos mal escritos, essa nota que você deu e digna das narrativas do storyteller, para o tormenta chegar nesse nível vai demorar muito (e põe muito nisso).receba minha critica de forma positiva, minha intenção e debater , e nao ser xingado e nem apedrejado.

    • gmferratti

      Olá! Agradeço pelo comentário. Como explicado em nossa seção “Quem Somos”, a nota reflete a opinião individual de cada colaborador. Particularmente, acredito que o trabalho de Tormenta RPG é inovador, único e valoriza o cenário nacional de maneira inédita. O mundo de Arton é maravilhosamente descrito no livro “O Reinado”, com geografia, sistema econômico e História. De fato, se analisarmos individualmente a obra Tormenta RPG, pode ser que tenhamos tal sensação de incompletude… Mas o que acabei julgando (talvez erroneamente) como fã e colecionador de todas as publicações da Jambô foi o “conjunto da obra”. Espero que compreenda minha perspectiva. Um abraço, Gustavo.

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