Laranja Mecânica

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Gustavo Ferratti

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Laranja Mecânica é o relato autobiográfico do adolescente Alex (15 anos) líder de uma gangue de delinquentes que comete atrocidades pelas ruas de uma metrópole sem nome. Pego em flagrante na cena de um crime, Alex é preso e submetido a um processo de reengenharia social. Combinando tratamentos de caráter químico e psicológico, Alex torna-se incapaz de agir como um criminal… Mas será que isso o tornou um indivíduo diferente?


Ficha Técnica

Título original: A Clockwork Orange

Autor: Anthony Burgess

País de origem: Reino Unido

Lançamento: 1962

Editora: Aleph

Tradução: Fábio Fernandes

Edição: 1ª

Páginas: 352


Background

Horrorshow. É a palavra em Nadsat que melhor descreve o sentimento de quem acaba de concluir a leitura de Laranja Mecânica. Para aqueles que ainda não pesquisaram no Google, Nadset é um conjunto de gírias teen advindo da mistura do “Inglês de rua” com o Russo, criado pelo autor da obra Anthony Burgess. O dialeto é tão “tosco”, infantil e, ao mesmo tempo, tão brilhantemente elaborado, que se torna substancial para a imersão completa de qualquer leitor nesta obra clássica. Quando digo que Laranja Mecânica é horrorshow, sumarizo dois aspectos fundamentais do livro. O primeiro deles, em tradução literal, é que Laranja Mecânica é um show de horrores. Cenas de estupro, violência extrema, crueldade e tortura são abundantes no desenrolar da história. Tais cenas são parcamente amenizadas pela linguagem infantil (Nadset) do narrador e protagonista do livro, Alex. Para tornar mais fácil a compreensão desta última frase, segue exemplo:

“Eles começaram a fazer hahaha, videando o bom e velho Tosko dançando ao redor e socando o vek escritor até o vek escritor começar a platchar como se o trabalho de toda uma vida estivesse arruinado, fazendo buábuá com uma rot ensanguentada muito quadrada”

Laranja Mecânica, Ed. 50 anos. A. Burgess – Ed. Aleph

Na cena anterior, Alex observa um de seus capangas rasgarem os manuscritos não publicados de um escritor autônomo, enquanto o último é esmurrado e fica lamentando no chão cheio de sangue no rosto.

Em outras palavras, leitores mais novos, sensíveis ou facilmente impressionáveis, podem não apreciar a obra ao imaginar as cenas do livro. Agora, se sangue não for um empecilho para você, saiba que Burgess não é um defensor da violência pela violência. Levando-nos ao segundo aspecto de Laranja Mecânica horrorshow. Horrorshow também pode significar “ótimo”, “demais” ou “excelente”. A história é intrigante, tem um excelente ritmo e as reflexões filosóficas para as quais somos conduzidos são profundas e atuais.

Qual a relação do “ser” e do “agir”? Qual a eficácia das medidas fiscalizatórias e do sistema carcerário? Como resolver o dilema “estar seguro” vs. “ser livre”? Estas são somente algumas das questões levantadas pelo autor ao longo da obra, justificando sua legião de fãs que perdura por mais de 50 anos. Por um lado, Burgess nos dá cenas totalmente impressionantes que demorarão a sair de nossa memória, por outro, defende pensamento crítico e navega pelas águas da sociologia, filosofia e psicologia em um formato acessível e dinâmico. Burgess falhou ao prever que Elves Presley e Beatles não seriam populares por muito tempo, mas acertou em cheio na receita de como cativar leitores até o início do próximo século.


Estilo da Obra

Ainda não tive oportunidade de ler outras obras de Burgess, mas confesso que demorei um pouco para me adaptar ao estilo de escrita de Laranja Mecânica. A estrutura do texto é bastante caótica, a distância sintática do Português para as línguas-mãe do Nadset (Anglo-germânicas e Eslavas) torna a leitura bastante quebrada até que ocorra a assimilação das palavras do pequeno Glossário no final do livro… Isso tudo, considerando o trabalho de 9 meses que a Tradução da Edição Brasileira teve para passar o texto para o Português (literalmente, “um parto”). Você está disposto a ler nas entrelinhas, induzir pelo contexto e adaptar-se ao linguajar infantil e cheio de gírias de Alex? Se a resposta for sim, Ó, meus irmãos, saiba que vale muito a pena! A linguagem faz total diferença na ambientação do livro, cenário e mensagem. Visto em conjunto, a escrita de Laranja Mecânica torna-se uma obra de arte, mas marinheiros de primeira viagem podem não apreciar o estilo em sua plenitude.


Personagens • SPOILER ALERT •

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Alex

Letrado, culto e apreciador de música clássica. É um adolescente que optou pela vida criminosa. É líder de uma gangue com 3 druguis (delinquentes) e protagonista do livro. Também é o narrador onisciente da história, ou como preferir “Seu Humilde Narrador, Ó, Irmãos”.

Georgie

Drugui que quer ser líder da gangue de Alex e torna-la mais democrática. Tenta “puxar o tapete” do protagonista 2 vezes, sendo bem sucedido na segunda tentativa. Mas a alegria dura pouco, pois é morto durante um assalto malsucedido.

Pete

O mais racional e reservado dos druguis. Elemento unificador do time quando existem divergências. No final do livro, renuncia a seus velhos hábitos, abandona o linguajar Nadsat, conhece uma garota e se casa.

Tosko

Personagem bossal, mas estupidamente forte. Sua risada é grave e medonha, seu comportamento bastante infantil e sua arma a mais exótica do grupo (uma corrente). Torna-se um policial malfeitor com o desmembramento da gangue.

Billiboy

Líder da gangue rival de Alex. Não muito explorado no livro, representa mais um elemento de oposição. Billiboy serve somente como fator agravante na traição de Tosko, que além de tornar-se um policial, também “se alia a gangue inimiga”.

R. Deltóide

Assistente social de Alex, sem muitas habilidades para lidar com o público jovem. Fica profundamente desapontado quando Alex é preso por assassinato, cuspindo em sua face e o entregando à justiça sem defendê-lo apropriadamente.

Branom | Dr. Brodsky

Desenvolveram em conjunto o Tratamento Ludovico, responsável por mudar radicalmente o comportamento de criminosos. Dr. Branom é mais calmo e humano (pelo menos enquanto Alex não resiste ao tratamento). Dr. Brodsky é mais objetivo, intelectual.

Ministro do Interior (Inferior)

Grande apoiador do Tratamento Ludovico para redução da população carcerária. Quando a população começa a questionar a anulação da liberdade de escolha dos presos, muda de lado e aproxima-se de Alex para ter sua imagem restaurada.

Capelão

Primeira pessoa a confiar genuinamente em Alex. Faz discursos sobre o inferno para aterrorizar os detentos. Bebe e fuma. Alex aproxima-se do Capelão visando reduzir sua pena por bom comportamento e posteriormente conseguir acesso tratamento Ludovico.

Joe

Inquilino dos pais de Alex. Como a família de Alex é bem humilde, após sua prisão, aluga o quarto para Joe visando complementar a renda. Joe é velho, mas considera os pais de Alex como seus, negando-se a sair de seu quarto quando Alex volta para casa.

Alexander

Escritor, idealista e vitima de uma grande atrocidade executada por Alex. Em uma noite chuvosa, acolhe o protagonista gravemente ferido em sua casa (sem reconhecê-lo). Quando percebe que é Alex começa a perder o controle. É um dos principais suspeitos para a armação da situação que força Alex ao suicídio.


Fatos por Capítulo • SPOILER ALERT •

Parte 1 | Capítulo 1

Reunião da gangue de Alex no local habitual para consumo de bebidas e drogas (Moloko Velocet). Agressão de um velho estudioso com um livro raro de cristais. Roubo de uma loja e descoberta do local onde a gangue sempre encontra um álibi: O Duque de NY.

Parte 1 | Capítulo 2

Agressão de um velho bêbado cantante. Primeiro encontro com Billiboy e sua gangue. Furto de um Durango 95, estupro da mulher de F. Alexander por tudo a gangue e agressões a F. Alexander. Primeiro contato com a obra Laranja Mecânica (fictícia).

Parte 1 | Capítulo 3

Alex encanta-se com a voz de uma garota e “quebra a cara” de Tosko que não percebe sua admiração e zomba dela. Apresentação da casa de Alex (Flatbloco 18-A), de seu gosto por música clássica e das ideias macabras que tem quando a escuta.

Parte 1 | Capítulo 4

Apresentação dos pais de Alex, do assistente social Deltóide e do seu dia-a-dia. Matando a escola para ir à loja de discos, Alex conhece duas garotas que leva para casa, dopa e estupra.

Parte 1 | Capítulo 5

Complô dos 3 druguis contra Alex para “democratização” da gangue e mais grana. Alex finge aceitar as condições e agride fortemente seus druguis quando estão de guarda-baixa. Início dos planos para o assalto a Mansa.

Parte 1 | Capítulo 6

A gangue dirige-se a mansão da “velha-dos-gatos”. Tentam entrar aplicando golpe, mas não consegue.. A velha desconfiada chama a polícia. Alex deixa a velha inconsciente após um combate brutal. Os druguis de Alex o traem, ele fica para trás e é capturado.

Parte 1 | Capítulo 7

Alex é interrogado com alguns “reforços físicos”, Deltóide gospe na cara de Alex pela tamanha decepção que representou. Alex descobre que a velha dos gatos está morta e será sentenciado aos 15 anos por assassinato.

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Ilustração de Dave McKean – Edição Comemorativa de 50 anos

Parte 2 | Capítulo 1

Alex torna-se o 6655321 e divide cela com mais 5 criminosos (3 beliches/ sela). Georgie morre. Alex aproxima-se do reverendo por interesses, conversando pela primeira vez sobre o Ludovico. Um sétimo elemento bastante importuno é adicionado a sela de Alex.

Parte 2 | Capítulo 2

O novo prisioneiro se comporta mal, levando Alex e outros companheiros a ensiná-lo uma lição. No processo, se empolgam demais e o novo detento morre. O diretor da prisão e o ministro fazem uma visita à cadeia e Alex é escolhido para o Tratamento Ludovico

Parte 2 | Capítulo 3

Conversa com reverendo sobre livre-arbítrio, transferência de Alex do presídio para a clínica. Início do Tratamento do Ludovico, explicação sobre o “milagroso método que te liberta em 15 dias”. Alex acha que está no paraíso.

Parte 2 | Capítulo 4

Início do tratamento de Alex no cine-cínico. Filmes de ultraviolência são exibidos full time enquanto Alex, surpreendentemente, sente repudia.

Parte 2 | Capítulo 5

Alex continua o tratamento e tem uma longa conversa com Dr. Branon sobre o porquê estar sentindo repudia a coisas que antes gostava de fazer. Um ofocial pergunta para onde Alex irá após o tratamento, ele responde: “Para casa, mas não precisa avisar ninguém. Quero fazer uma surpresa.”

Parte 2 | Capítulo 6

Alex descobre que são as injeções de “vitaminas” o motivo da sua repudia pela violência. Tenta resistir, mas acaba recebendo o medicamento a força. Fica irado por criar repudia também a música clássica, a trilha sonora dos filmes “educativos”.

Parte 2 | Capítulo 7

Uma exibição da transformação de Alex é feita para uma plateia de pessoas importantes. Alex não é mais capaz de cometer qualquer tipo de crime, pois o próprio organismo dele não permite. Após a transformação, Alex é solto.

04
Ilustração do brasileiro Angeli – Edição Comemorativa de 50 Anos

Parte 3 | Capítulo 1

Alex é liberado do tratamento, para em um Café e lê as notícias a seu respeito, notando que é um instrumento político. Volta para sua casa, mas tem outro morando em seu lugar. Seus pais alugaram seu quarto, Alex bringa com a família e sai sem rumo.

Parte 3 | Capítulo 2

Alex confirma sua aversão por música clássica em uma visita à loja de discos. Indignado, procura de uma maneira de se matar na biblioteca. Lá, encontra uma de suas vitimas – o velho do livro de cristais – que o reconhece e o lincha com ajuda de outros idosos.

Parte 3 | Capítulo 3

Alex é amparado por Billiboy e Tosko que são agora policiais. Quando o reconhecem, resolvem dar uma bela sova ao protagonista pelos velhos tempos.

Parte 3 | Capítulo 4

Alex caminha sem rumo sob a chuva, todo sujo, machucado e ensanguentado. Encontra a casa de F. Alex, o escritor que torturou e estuprou a mulher. O escritor não o reconhece, escuta sua história e o acolhe em sua casa.

Parte 3 | Capítulo 5

Alex que pede colaboração do protagonista com a oposição do partido vigente por meio de seu depoimento. F. Alex reconhece seu algoz que foge. Ao acordar, Alex está trancado em um apartamento ao som de música clássica e tenta suicidar-se.

Parte 3 | Capítulo 6

Alex fica gravemente ferido e é hospitalizado. Ao acordar, não tem mais o bloqueio da violência e consegue ser o que é. O ministro que está com o mandato fracassado, usa Alex como instrumento político, garantindo-o um novo recomeço (dinheiro, estéreo e lar)

Parte 3 | Capítulo 7

Alex está bem de vida, dinheiro e com uma nova gangue. Mas já não sente mais o mesmo prazer de antes em vandalizar. Ao deparar-se com Pete casado e crescido, pergunta-se senão é a hora de sossegar e buscar um herdeiro.

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   Ilustração de Oscar Grillo – Edição Comemorativa de 50 anos


Ritmo: 16 exp. Adaptação ao estilo de escrita demorada, mas uma vez que se acostuma, flui bem. Divisão de capítulos e do livro em 3 partes muito bem pensada.

Personagens: 18 exp. Protagonista bem explorado. Personagens com muito carisma, mas alguns poderiam ser melhor trabalhados.

Qualidade da plot: 20 exp. Trama pensada e repensada do início ao fim.

Cuidado com os detalhes: 20 exp. Muitas referências a escritores, gírias, obras clássicas e músicas. Cenários ricos, alto nível de detalhamento nas roupas, ferramentas e ambientes.

Empatia com o leitor: 18 exp. Muito difícil não simpatizar com o narrador. Mesmo com toda sua crueldade, o leitor acaba se tornando íntimo (a não ser que seja Lawful Good ao extremo).

 

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