A Revolução dos Bichos

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Gustavo Ferratti

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Animal Farm ou A Revolução dos Bichos é uma obra de Eric Arthur Blair, conhecido pelo codinome George Orwell. Foi publicado em 1945, durante a Guerra Fria, e causou MUITA polêmica. Começando pela publicação em si. Quando finalizou a obra em 1943, Orwell não encontrou editora disposta a imprimi-la. Com o título de “Melhor Cronista do Século XX”, a dificuldade de publicação, com certeza, não ocorreu por seu amadorismo. A postergação da publicação de Orwell justifica-se pelo contexto histórico extremamente TENSO em que estava inserido. A Revolução dos Bichos é uma crítica severa a ditadura Stalinista e, se ligarmos os pontos, nos lembramos de que em 1943 os soviéticos ainda eram aliados importantes da Inglaterra no combate ao nazismo. Nada bom associar o presidente de um país a um porco quando você necessita encarecidamente de sua ajuda, não é mesmo?

Depois de publicada, a obra foi rapidamente proibida na União Soviética, Quênia e outros países de regime socialista. Até hoje, permanece proibida na China, Coréia da Norte e Cuba. Nos Emirados Árabes Unidos é repudiada pelo Islã, devido à associação de seres humanos a porcos. Mesmo que você esteja com vontade de comer do fruto proibido, amigo leitor, espere: Orwell não cresceu somente pela polêmica ou brilhantismo. Grande parte da repercussão de sua obra vem do Ocidente Capitalista que utilizou Animal Farm como arma ideológica após a Guerra Fria “esquentar”. O fanatismo dos leitores deixou Orwell um pouco incomodado. O mesmo se autoproclamava socialista e lutou voluntariamente como revolucionário na Guerra Civil Espanhola. Sabemos que, como acontece com grandes obras (e.g. “A Bíblia”, “Vampiro A Máscara”), parte do sucesso de Orwell vem de extremistas sem noção (e.g. pastor metralhadora, góticos que matam gatinhos).


Ficha Técnica

Título original: Animal Farm

Autor: George Orwell

País de origem: Reino Unido

Lançamento: 17 de agosto de 1945

Editora: Companhia das Letras

Tradução: Heitor Aquino Ferreira

Edição:

Páginas: 147


Preview

Granja do Solar é uma propriedade rural liderada pelo fazendeiro Sr. Jones que trata os animais “como animais”. Sentindo-se explorados, os bichos se unem e arquitetam uma revolução, idealizando um cenário onde trabalhem menos, tenham mais benefícios e melhores condições de vida.  Liderado pelos porcos, a revolução acontece com a temática “Quatro Pernas Bom, Duas Pernas Ruim”. A Granja Solaris se transforma na Granja dos Bichos, um hino é criado juntamente com uma bandeira e um sistema de leis As coisas vão muito bem, até alguns animais julgarem-se superiores a outros…


Estilo da Obra

O livro é leve e curto. Capítulos são bem estruturados, condensando bem momentos históricos da Guerra Fria. O autor é bastante objetivo e tem um vocabulário bem acessível. Algumas palavras podem parecer não muito usuais, mas isso ocorre pelo gap de quase 70 anos entre escrita/leitura. O mais legal é que você não precisa de conhecimentos históricos profundos para compreender o que está acontecendo. Caso conheça um pouco de histórica e política, você tem um plus.


Personagens • SPOILER ALERT •

Os personagens são extremamente bem construídos. TODOS representam arquétipos de pessoas dentro do regime comunista ou figuras históricas importantes. Até mesmo os atributos dos animais condizem com algum traço da personalidade de um arquétipo ou personagem específico.

Jones (humano)

Fazendeiro da Granja Solaris. Metaforiza o Czar Russo Nicolau II. É mesquinho, cruel e ganancioso.

Major (porco)

Idealista e arquiteto da Revolução Animalista. Metaforiza Marx e Lenin. Por acreditar no que fala, Major consegue incitar esperança de dias melhores nos outros bichos.

Napoleão (porco)

Autoritário, maquiavélico e egoísta. Metaforiza Stalin. Seu nível de corrupção e autoritarismo vai aumentando com o passar da história.

Bola-de-neve (porco)

Junto com Napoleão, é um dos líderes da Revolução. Metaforiza Trotski. Segue fielmente os princípios do Animalismo, mas sofre um golpe e é taxado de traidor.

Garganta (porco)

Braço direito de Napoelão. Metaforiza o departamento de propaganda de Stalin. Utiliza sua boa oratória para convencer os animais da granja que “Napoleão tem Sempre Razão”.

Cachorros

Garantem, por meio da força bruta, a permanência de Napoleão no Poder. Metaforizam o Exército Russo e a Polícia. Atacam os outros animais ao menor sinal de descontentamento.

Ovelhas

Barraqueiras e causadoras de intriga. Metaforizam o tumulto e o alvoroço popular que cala a voz da razão. Quando os animais reclamam, as ovelhas balem.

Outros Fazendeiros

Representam países capitalistas, que vão estreitando a relação com a Rússia. A percepção dos animais da granja sobre os outros fazendeiros muda perceptivelmente ao longo da história.

Sansão (cavalo)

Muito trabalhador e leal. Metaforiza a classe proletária com elevado nível de dedicação e produtividade.

Mimosa (vaca)

Preguiçosa e luxuriosa. Metaforiza os trabalhadores improdutivos, os dissidentes e pessoas de gosto refinado.

Benjamin (burro)

Desconfiado e curioso. Metaforiza os que sabem demais dentro de um regime totalitário.

Moisés (corvo)

Metaforiza a religião. No começo do livro, é tratado como mentiroso por contar histórias da “Montanha de Açúcar Cande” um lugar que se todos trabalhassem poderiam alcançar. Napoleão pede pelo seu retorno quando a situação se torna insustentável.


Fatos por Capítulo • SPOILER ALERT •

Capítulo 1

A dominação do Sr. Jones é mostrada em toda a sua crueldade. Os bichos reúnem-se no seleiro convocados por Major (Marx/ Lenin) para ouvir seu discurso. Personagens principais e secundários são introduzidos enquanto aguardam a chegada de Major. Major faz um discurso motivacional, apresentando o Animalismo (Socialismo) utópico. O Hino Bichos da Inglaterra (analogia ao Hino da “Internacional Socialista”) é cantado pela primeira vez.

Capítulo 2

Major falece. Os animais, liderados por Napoleão e Bola-de-Neve, conseguem tomar a Granja do Solar. A Granja muda de nome para Granja dos Bichos. Um sistema rígido de leis é imposto. Animais não podem comer açúcar, usar laços, dormir em camas, beber álcool, andar nas patas de trás ou executar qualquer tipo de atividade que estejam relacionadas aos hábitos humanos. Mandamentos são escritos na parede, mas a maioria dos animais é analfabeta e não é capaz de compreendê-los. Moisés é expulso.

Capítulo 3

Animais começam o trabalho duro. Os que trabalham mais suprem a deficiência dos que produzem menos. As aulas de leitura e escrita ganham popularidade, mas animais tem bastante dificuldade em aprender (representação do analfabetismo político da população). Começam a aparecer algumas disparidades entre os porcos e o restante dos bichos. As maçãs são alimento exclusivo dos porcos, o leite que sumiu é descoberto misturado na comida dos porcos.

Capítulo 4

A ideologia Animalista é espalhada a outras propriedades por meio de “pombos correio”. Em uma tentativa de retomar a fazenda,  Sr. Jones prepara um ataque aliado a outros humanos. Ocorre “A Batalha do Estábulo”, onde vários animais morrem, mas conseguem resistir à pressão dos humanos. Bola-de-Neve e Sansão recebem medalhas e honras pelas suas atitudes em Batalha. Mimosa tenta fugir, mas falha.

Capítulo 5

Mimosa torna-se cada vez mais improdutiva com a chegada do inverno. Após certa pressão, foge da Granja dos Bichos para levar uma vida mais doce e bela (com acesso a açúcar e laços). Bola-de-Neve e Napoleão entram em pé de guerra. O tempo de estiagem força os bichos a trabalharem mais. O projeto do moinho de vento (analogia a corrida espacial)  toma forma. Napoleão, com uso dos cães, dá um golpe em Bola-de-Neve e assume o papel de governante. Falácias sobre Bola-de-Neve começam a ser espalhadas por Napoleão.

Capítulo 6

Bichos trabalham feito escravos. Construção do moinho é iniciada e apresenta sérias dificuldades operacionais que impactam todos os animais. Napoleão anuncia comercialização com granjas vizinhas.  Porcos se mudam para antiga casa do Sr. Jones, usufruindo de maiores luxos. Moinho em fase final é destruído na calada da noite. Napoleão atribui à culpa da destruição do moinho à Bola de Neve.

Capítulo 7

Bichos vivem na miséria para cumprir acordos comerciais dos porcos com outras granjas. Bola-de-neve é intensamente utilizado como bode expiatório por Garganta, para tudo que foge do controle. Um extermínio acontece dentro do seleiro para todos os animais que “não engolem” a alteração dos fatos difundida pelo novo regime. Em um sentimento nostálgico, após o extermino, animais cantam “Bichos da Inglaterra”. Hino é banido na sequência.

Capítulo 8

Napoleão torna-se Deus. Não aparece mais em público, ganha títulos, honras e um hino em sua homenagem. Intensifica relações comerciais com outras propriedades, fazendo e desfazendo alianças com fazendeiros rivais a torto e direito. A Granja dos Bichos recebe um ataque intenso e feroz. O moinho é destruído pela Segunda Vez e grande parte da população dizimada. Porcos quebram o mandamento de “Não beberás.”

Capítulo 9

Moinho volta a ser reconstruído em ritmo mais lento (estrutura mais reforçada e trabalhadores     mais cansados). Aposentadoria dos bichos é alterada. Iniciada produção de bebidas alcoólicas. População de porcos aumenta junto com a disparidade social. Moisés retorna a granja. Aumento do número de discursos, desfiles e da política da honra pela honra. Sansão falece após ser   levado para “atendimento médico” (matadouro).

Capítulo 10

Granja torna-se totalmente aberta a outros fazendeiros. Porcos fumam charutos, dormem em camas e andam sobre duas patas. Na reunião feita com os outros fazendeiros na mansão o autor encerra: “As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez, mas já era impossível distinguir quem era porco e quem era homem.”

Ritmo: 20 exp. Divisão de capítulos muito bem estruturada, escrita acessível

Personagens: 20 exp. Personalidades marcantes, bem diversificadas com alta relevância no desenvolver da trama.

Qualidade da plot: 18 exp. Excelente PLOT. Seria perfeita se os turnarounds fossem um pouco mais explorados

Cuidado com os detalhes: 20 exp. Apesar da linguagem objetiva, muitos easter eggs para historiadores de plantão.

Empatia com o leitor: 12 exp. Leitores que não curtem muito história/política ou a própria temática de animais, podem não se identificar com o livro.

 

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