A Liga dos Artesãos

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Gustavo Ferratti

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Seguindo a tendência da semana passada de crowdfundings que deram certo (7 Days to Die) e orgulho patriótico (Narcos), Alvores é um envolvente universo fantástico criado pelo brasileiro Lauro Kociuba (VAI BRASIL!). Analisaremos aqui o primeiro livro da série Alvores, intitulado A Liga dos Artesãos. Basicamente, o livro aborda a ideia de uma realidade alternativa em que elfos, anões, orcs e dragões coexistem com a atual civilização humana “bem debaixo do nosso nariz”. Como assim? Em sentido figurado, as criaturas fantásticas disfarçam seus traços característicos ou se escondem em ruelas, becos, esgotos, florestas e zonas remotas do planeta. Em sentido literal, o subsolo da capital paranaense, Curitiba, abriga o reino anão de Khur, com mansões subterrâneas, máquinas a vapor, iluminação feita por cristais, construtos mecânicos e uma tecnologia de dar inveja em Moria e Doherimm.


Ficha técnica

Título: A Liga dos Artesãos

Autor: Lauro Kociuba

País de Origem: Brasil

Lançamento: 2014

Editora: Obra Independente

Páginas: 159

Edição: 1


O Projeto Alvores

Lauro Kociuba (32) é de São José dos Pinhais – PR. Exerce as funções de pai de família, bancário, blogueiro e é escritor nas horas vagas (fácil, fácil). Ao iniciar a leitura de A Liga dos Artesãos, você não demorará para perceber as influências de Tolkien (Senhor dos Anéis), Rothfuss (A Crônica do Matador do Rei) e Neil Gaiman (Sandman) no estilo de escrita de Lauro. Como era de se esperar, com grandes mestres surgem grandes discípulos. Não foi por acaso que o crowfunding de Lauro conseguiu bater sua meta inicial de R$8.000,00, atingindo meta estendida de R$12.200,00 no portal de financiamento coletivo Catarse. Tal ação garantiu ao leitor o compromisso de lançamento de um artbook com 42 ilustradores incríveis. O mais legal é que você pode adquirir a versão digital do livro por um valor MUITO acessível (paguei R$1,99 para ler no meu Kindle, link). Ainda assim, se quiser adquirir a versão física do livro, sei que também será bem servido com ilustrações exclusivas (não presentes na versão digital) e capa diferenciada. As imagens abaixo do blog MeLivrando foram as que me ajudaram a construir esta ideia.

 

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Interior do Livro (Blog MeLivrando)
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Capa do Livro (Blog MeLivrando)

Ambiente

A proposta de Lauro em ambientar seu livro nas terras tupiniquins é bastante ambiciosa, visto a tendência natural do brasileiro menosprezar o que é nacional. Confirmei essa perspectiva ao receber algumas “torções de nariz” assim que falei do cenário: “Cara, uma aventura ambientada em Curitiba? ”.  Se você acha o conceito engraçado, vem comigo na reflexão:

Não estamos cansados de ver Robert Langdon “turistando” na Europa? Vilões da Marvel tentando dominar Washington DC? Mechas e monstros destruindo Tokyo? Logo, o que é preferível: falar de um ambiente que estamos familiarizados e fazer uma MEGA descrição ou fazer alusão a cenários que só vimos por fotos, referências externas ou uma vez nas férias de verão?

Se ainda não te convenci, tenho certeza que ao ler as descrições de alguns lugares como a Catedral Nossa Senhora da Luz, Largo da Ordem e Passeio Público, entenderá do que estou falando.  Quanto aos elementos fantasiosos, temos uma forte presença mitológica dentro de uma temática medieval-clássica com tecnologia steampunk (máquinas a vapor). Por conta da energia mágica que emanam, as “criaturas do alvorecer” não conseguem utilizar sistemas elétricos/computacionais, fazendo-os usar e abusar do bom e velho vapor.

 

passeio-publico
Passeio Público – um dos lugares retratados na “Curitiba fantasiosa”

História

O protagonista da história é Tales, um meio-elfo (ou “encantado”) com idade élfica equivalente a 15 anos. Tales foi separado de seus pais logo cedo para ser treinado por Aer’delo, um dos poucos elfos restantes do mundo. Ele aprende técnicas de combate, arquearia e História dos alvores. Logo no 1º capítulo, ele já está preparado para sua primeira missão “de verdade”. De tocaia no Largo da Ordem, Tales espiona a transação de um objeto desconhecido em poder de meio-orcs (ou “mestiços”). Eis que então, uma série de eventos inesperados o coloca em apuros e o leva para o subsolo de Curitiba, onde entra em contato com o fantástico reino dos anões.

A preocupação com os detalhes de Lauro é grandiosa. Além de descrever muito bem a arquitetura interna do salão real, o estilo de vida dos anões e os elementos históricos que desvencilharam a trama principal (existe até uma explicação fictícia para a origem do nome Curitiba!), Lauro vai além em sua pesquisa de campo. Por exemplo, o anão Bro-thum utiliza uma Harley para se locomover por Curitiba e, nos extras do livro, o autor afirmou ter consultado um brother aficionado por motos para saber como seria uma Harley adaptada para anões. Outro exemplo, a energia geotérmica explorada pelos anões na série, de fato é utilizada com os mesmos cuidados mostrados com manipulação de vapor é tóxico. Enfim, dê uma chance ao livro que será surpreendido pela trama.

personagens
Alguns personagens do livro

Ritmo: o Calcanhar de Aquiles

Apesar da genialidade das ideias de Lauro, seu vocabulário amplo e seu estilo de escrita preciso e objetivo, o que falta no primeiro livro é basicamente uma coisa: ritmo. A continuidade do texto é quebrada muitas vezes com interlúdios que poderiam ser encaixados de forma um pouco mais natural na história. Fora isso, existem descrições longas em momentos secundários e curtas demais em personagens com um potencial gigante a ser explorado. Quem lê o livro “em uma sentada” (meu caso), sente um “chute no saco” quando, no ápice da fuga do traidor, os heróis vão descansar na casa de um anão e rola uma cena de um banquete “em família” cheio de cenas fofas. Não estou dizendo que esse conteúdo seja proibitivo. Com certeza, o capítulo teve muito a ver com o momento da vida que o autor estava passando (tinha acabado de se tornar pai) e encaixá-lo no livro é algo totalmente plausível. Contudo, a sequência de eventos definitivamente precisaria ser revista, para não termos a impressão de estar diante de uma “colcha de retalhos”.

Ritmo: 5 exp. Mesmo com a genialidade das ideias de Lauro e sua escrita impecável, o ritmo é o “calcanhar de Aquiles” do livro. Muitos interlúdios e nível de descrição oscilante. Para quem lê “em uma sentada”, fica a impressão de que os capítulos foram escritos em diversos momentos da vida de Lauro e juntados todos de uma vez, como uma “colcha de retalhos”.

Personagens: 10 exp. Sei que é só o primeiro livro da série, mas apesar dos personagens terem uma boa descrição física, faltam momentos que nos permitam entrar no subconsciente do personagem, identificar suas peculiaridades, forma de pensar e traços de personalidade.

Qualidade da plot: 16 exp. A história flui como em um RPG de mesa, cheia de intrigas, conspirações, itens raros e uma trama densa e complexa.

Cuidado com os detalhes: 20 exp. Como já dito, todo o ambiente do livro (e cada elemento fantasioso) foi estudado, refletido e levado a sério. É o ponto mais forte do livro.

Empatia com o leitor: 17 exp. O leitor se simpatizará mais com o ambiente do que os próprios personagens, mas a sinergia é grande e real.  Margem de 3 exp. para aqueles que ainda não estiverem convencidos de que é possível fazer uma narrativa de fantasia épica no Brasil.

 

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