1Q84

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Juliana Yendo

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Quando perguntei para alguns conhecidos que já tinham lido 1Q84 o que eles acharam da obra e se a leitura valia a pena, a resposta foi unânime: “Leia, apenas leia”. Fiquei extremamente intrigada com uma resposta tão breve e, ao mesmo tempo, tão convicta. O engraçado é que foi exatamente essa referência vaga que me despertou uma curiosidade imensa de ler a triologia de Murakami. Não quis procurar resenhas nem maiores informações na internet. Fui até uma livraria e comprei os três livros de uma vez só.

Foi só depois de terminar a leitura dos três volumes que entendi as recomendações do “Apenas leia”. O fato de não ter recebido detalhes ou informações sobre a trama me proporcionou uma leitura muito prazerosa, com diversas  surpresas. Posso atribuir muitos pontos positivos da minha experiência literária pelo fator do desconhecimento “por opção”. Pode parecer exagero, mas qualquer informação trivial, aparentemente inocente, pode se tornar um grande spoiler.

Devo confessar que isso foi bom e ruim ao mesmo tempo. Talvez o livro não tivesse a mesma graça se eu soubesse mais a respeito do enredo, mas definitivamente, eu preferia estar a par de algumas coisas, para não ser pega de surpresa nos aspectos negativos (e, por vezes, bizarros). Vou tentar ao máximo evitar spoilers para preservar a experiência de quem ainda não conhece a obra e, ao mesmo tempo, expor alguns pontos que considero relevantes – e que gostaria de ter tido conhecimento antes de ler essa obra.


Ficha Técnica

Título original: 1Q84 (Ichi-Kyū-Hachi-Yon)

Autor: Haruki Murakami

País de origem: Japão

Lançamento (país de origem): 2009

Lançamento (Brasil): 2012

Editora: Alfaguara

Tradução: Lica Hashimoto

Edição: 1ª

Volumes: 3

Preço médio: R$87,40 – Box da triologia (16/11/2016)


Preview

Haruki Murakami é um consagrado escritor e um dos maiores nomes da literatura contemporânea japonesa. Nascido em Quioto no ano de 1949, o autor possui 67 anos. O reconhecimento de seu nome e de suas obras transcende seu país de origem: Murakami é respeitado internacionalmente e suas obras foram traduzidas para mais de 50 idiomas. Vencedor de inúmeros prêmios literários, seu trabalho é aclamado pela crítica e vende milhões de cópias mundo afora. Entre seus trabalhos encontram-se: Norwegian Wood, Minha querida Sputnik, Kafka à beia mar, 1Q84, O incolor Tsukuro Tazaki e seus anos de peregrinação.

 

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A triologia 1Q84 é a obra mais longa escrita por Murakami. Os dois primeiros volumes foram lançados no Japão em 2009 e o terceiro em 2010. Na época de seu lançamento, o romance virou sensação e rapidamente esgotou os exemplares nas prateleiras, resultando na venda de cerca de um milhão de cópias apenas no primeiro mês. Considerada a obra mais ambiciosa de Murakami (e para alguns, sua obra-prima), 1Q84 divide opiniões de críticos e leitores.


Contexto e História

Como o próprio título do livro sugere, a história se passa no ano de 1984 e faz uma referência direta à obra de George Orwell (1984). Ao nomear sua triologia, Murakami traz seu próprio significado e cria uma brincadeira fonética: na língua japonesa, 1Q84 é pronunciado como “Ichi-Kyū-Hachi-Yon”, em que a pronúncia do número 9 (Kyū) é muito parecida com o “Q” na língua inglesa. O motivo de o autor ter substituído o número “9” pela letra “Q” está intrinsecamente ligado ao contexto principal da obra (pode parecer bem generalista, mas não irei dar maiores detalhes para evitar spoilers).

A principal estrutura de 1Q84 é a narrativa de duas histórias paralelas que, aos poucos, vão se conectando e entrelaçando. A trama tem como protagonistas Aomame e Tengo, dois jovens que beiram a casa dos 30 anos de idade, vivem em Tóquio e possuem uma vida aparentemente normal. Sim, aparentemente. Aomame é uma personal trainer que trabalha em uma academia de luxo e dá aulas particulares a domicílio. Possui um dom naquilo que faz, devido a sua extrema sensibilidade e conhecimento sobre cada músculo do corpo. Além disso, guarda um segredo: uma segunda profissão, perigosa e obscura, que gera consequências substanciais na vida de muitas pessoas ao seu redor (e fora dele também). Tengo é um professor de matemática em um cursinho preparatório de Tóquio e aspirante a escritor. Devido ao potencial existente em sua escrita, Tengo recebe uma oferta de trabalho tentadora e arriscada, que desencadeia uma série de acontecimentos além de seu controle. As ocupações secundárias desses personagens levam-nos para duas grandes situações fatídicas, que trazem densidade e complicações em suas vidas.

Apesar de a narrativa ser em terceira pessoa, o enredo é construído a partir da visão de Tengo e Aomame, de modo que os capítulos são alternados entre esses dois personagens e mostram os fatos a partir de seus olhos, pensamentos e emoções. Apenas no último volume é inserida a visão de um terceiro personagem, que também ganha seus próprios capítulos.

Murakami constrói sua narrativa fundamentando-se em alguns temas-chave que são explorados ao longo dos três livros, como o fanatismo religioso, a intolerância religiosa, o ocultismo, as relações familiares conflituosas, as infâncias conturbadas e a violência doméstica. É bem difícil classificar o gênero desta obra, já que aborda muitos assuntos de diversas formas diferentes. O mistério, o drama, o romance e o suspense estão presentes na trama, oscilando entre a realidade e os elementos e cenários fantasiosos.


Características da obra

Um dos pontos que mais me chamou a atenção nessa obra foi a quantidade e a qualidade de referências feitas por Murakami. Desde objetos e roupas até obras literárias e músicas, somos inseridos com profundidade dentro do universo criado pelo autor. Seja para descrever um personagem, um ambiente ou uma ação, Murakami não deixa o leitor de fora e apresenta com detalhes minuciosos tudo o que aborda e descreve.

Personalidades da música, como Leoš Janáček e Billie Holiday, e da literatura, como Tchekhov e Tolstoi, são citados e explorados, tornando-se parte da narrativa. A Sinfonietta de Janáček, as Narrativas de Heike e A Fazenda Africana de Karen Blixen são algumas das obras que são referenciadas e fazem parte do enredo.

 

 

Além do vasto repertório de referências, outra característica notável da obra é a narrativa descritiva, elemento marcante nas obras de Murakami. Particularmente, eu não sou muito fã de obras extremamente descritivas, pois podem quebrar o ritmo da leitura. Entretanto, nesta obra, isso não acontece. Apesar do grande cuidado em descrever os personagens e as cenas, Murakami faz isso sem deixar cansativo ou enfadonho: ele consegue imergir o leitor no universo que cria, sua descrição é nítida e lúcida. Por meio de suas metáforas e comparações, torna-se muito fácil imaginar os personagens, os cenários e as ações. Parece que estamos assistindo a tudo dentro da nossa cabeça. É incrível essa habilidade em nos fazer imaginar tudo em detalhes.

Murakami não poupa palavras para nenhum tipo de descrição, inclusive ao expor a vida sexual de seus personagens. É bastante recorrente (na minha opinião, até demais) passagens do livro que incitam o sexo e descrições detalhadas do ato em si. O autor trata o sexo como um elemento de peso e simbólico em sua trama. Particularmente, esse apelo sexual para explicar algumas coisas não me convenceu nenhum pouco e me deixou com uma impressão meio bizarra.

O ritmo dos livros corre muito bem até o terceiro livro, onde a trama tropeça em repetições e se torna extremamente lenta e arrastada. Os problemas e mistérios parecem não se resolver e nos deparamos frequentemente com o “reprise” de fatos e situações já descritas anteriormente e muito bem conhecidas pelo leitor. A impressão que temos é que o terceiro livro remói muitas coisas ao invés de desenvolvê-las.


Impressões pessoais

Sinto-me “pisando em ovos” para falar de uma obra de Murakami, já que não sou nenhuma profissional do ramo ou especialista do mundo literário. Mas a sensação que ficou para mim quando finalizei a leitura da triologia foi: 1Q84 tinha muito potencial para ser uma obra excepcional, do começo ao fim, mas não conseguiu… Murakami, mas o que foi que aconteceu, cara???

É complicado condenar a obra inteira pelo fato de o último livro e o desfecho terem se chocado tragicamente contra as expectativas dos leitores. E, ao mesmo tempo, não dá para deixar de considerar isso e dizer que a obra é simplesmente fantástica – até agora não consigo me conformar com o terceiro volume da série. Li e ouvi muitas especulações sobre o motivo de Murakami ter finalizado a série dessa forma, mas nenhuma de uma fonte oficial ou segura. Então não dá para saber os reais motivos que levaram Murakami a escrever esse final frustrante.

Apesar disso, não dá para dizer que é uma obra que não vale a pena ser lida. Vou enfatizar alguns prós e contras que considero relevantes para quem não leu a obra e talvez tenha interesse em se aventurar. A maior falha da triologia é o andamento final da narrativa e o desfecho da história. Muita coisa importante do enredo, que desperta uma grande curiosidade no leitor, não é explicada nem esclarecida. Murakami cria inúmeros elementos interessantes e misteriosos que não são “resolvidos” no final. Enquanto eu lia o terceiro volume, cujo ritmo é extremamente arrastado e repetitivo, fui agonizando pelo fato de não descobrir os mistérios apresentados até então. Fiquei angustiada quando percebi que faltavam poucas páginas para terminar o livro e muita coisa ainda não havia sido esclarecida. Outra questão do livro que me incomodou foi a densidade e o peso excessivo dado pelo autor ao sexo. De maneira bizarra, quase perturbadora, o sexo foi a justificativa para algumas passagens e fatos importantes na trama.

Mesmo com esses pontos desfavoráveis, a história tem seus pontos fortes. Os dois primeiros livros são muito bem escritos e os personagens criados por Murakami são fantásticos. Eles são tão bem descritos e detalhados que temos a impressão de conhecê-los pessoalmente. Eu tive uma vontade enorme de desenhar cada um dos personagens, tamanha a habilidade do autor em caracterizar fisicamente e psicologicamente cada um (ainda vou fazer isso, assim que desenferrujar minha mão do desenho!). A narrativa de Murakami é hipnotizante, é impossível ler só algumas páginas. Além das diversas referências feitas pelo autor, gostei muito dos detalhes relatados sobre a rotina dos personagens: o tipo de refeição preparado por eles, seus hábitos, as músicas que escutam, os livros que estão lendo. Particularmente, apreciei bastante as passagens em que Murakami insere trechos de obras que os personagens estão lendo ou conversando a respeito e a maneira com que esses textos são amarrados com a história.

Trata-se de uma triologia um pouco polêmica. Não dá pra dizer que é a melhor obra de Murakami, mas definitivamente é um trabalho importante do autor. Leitores que não conhecem muito sobre esse importante escritor japonês devem dar uma chance à obra. Apesar de tudo, eu diria que a leitura vale sim. Leia, apenas leia. E depois a gente conversa mais.

Ritmo: 12 exp. No início da triologia, o ritmo flui bem e os acontecimentos parecem caminhar no compasso certo. Porém, o terceiro livro quebra completamente o ritmo bem elaborado até então. É uma enrolação sem fim, nada de novo parece acontecer, o que causa uma angústia bem grande.

Personagens: 20 exp. Um dos pontos mais fortes da trama. Todos os personagens, tanto principais como secundários são criados e descritos com muito capricho. Murakami trabalha muito bem todos os aspectos: desde a aparência física e a maneira de se vestir, até a personalidade, os sentimentos, os costumes, os comportamentos e o modo de vida. Destaque para Tamaru e a Velha Senhora de Azabu, meus personagens preferidos da obra!

Qualidade da plot: 12 exp. É nítido o potencial da narrativa nos dois primeiros livros. Murakami cria uma trama rica e original, em que tudo parece se encaixar – até o terceiro livro. O leitor cria muitas expectativas para o último livro, esperando respostas e revelações de toda a história tecida até então. Mas essa espera é em vão. É inevitável a frustração com a reta final da triologia e seu desfecho. As pontas soltas deixadas por Murakami são inúmeras e a maneira com que a história termina é extremamente rasa e clichê. Vamos morrer com várias dúvidas e curiosidades que não foram esclarecidas.

Cuidado com os detalhes: 20 exp. Eu diria que esse é o grande destaque da obra. Com uma linguagem descomplicada e uma escrita nítida, Murakami consegue retratar muito bem os detalhes do universo de sua obra.

Empatia com o leitor: 14 exp. Pelo fato de a obra abordar alguns temas intensos e polêmicos, pode ser que não agrade todos os tipos de leitores. O ocultismo, o fanatismo religioso e a intolerância religiosa são alguns dos temas fortes que embasam a narrativa de Murakami.

 

2 Comments

  • Miki

    Também fiquei muuuito frustrada com o final, Ju. Mas o enredo realmente me prendeu, o que fez minha experiência valer a pena. O desconforto até contribuiu para que essa trilogia ficasse marcada para mim.

    • Juliana Yendo

      Dá uma sensação engraçada, né? Ao mesmo tempo que o final é frustrante, a obra é marcante mesmo assim! Li alguns boatos de que na verdade o terceiro livro não era previsto pelo Murakami e outra de que a editora apressou ele pra escrever o livro final… Mas não sei direito o que aconteceu :T

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